O que muda no cuidado do diabetes (e no hospital)
As Diretrizes da Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD) – Edição 2025 foram oficialmente publicadas no dia 12 de agosto de 2025 e consolidam recomendações baseadas em evidências para todo o cuidado em diabetes no Brasil — do diagnóstico e tratamento ambulatorial ao manejo hospitalar e perioperatório. Para profissionais e serviços de saúde, o documento funciona como referência prática e atualizada para padronizar condutas, elevar a segurança do paciente e reduzir desfechos negativos. Diretriz Diabetes
Panorama geral: o que a edição 2025 traz
- Atualizações em classificação/diagnóstico, tratamento do DM1 e DM2, além de nutrição, exercício e psicologia aplicadas ao cuidado do diabetes. Diretriz Diabetes
- Capítulos de cuidado do diabetes no hospital reforçados, com foco em hiperglicemia em pacientes críticos e não críticos, manejo no perioperatório, cetoacidose diabética (incluindo forma euglicêmica), síndrome hiperglicêmica hiperosmolar e infecção no pé diabético. Diretriz Diabetes+1
Destaques práticos para o ambiente hospitalar
1) Hiperglicemia no paciente crítico
- Insulinoterapia endovenosa é o tratamento de escolha.
- Quando iniciar: considerar na hiperglicemia persistente ≥ 180 mg/dL (duas ou mais medidas nas 24h).
- Metas recomendadas: 140–180 mg/dL (evitar controle estrito e <110 mg/dL sob insulina).
Essas recomendações reforçam metas seguras, factíveis e com melhor perfil de risco-benefício no CTI. Diretriz Diabetes
2) Programas hospitalares de controle glicêmico (PCGH)
A SBD recomenda que hospitais implantem programas estruturados de controle glicêmico conduzidos por equipe multidisciplinar capacitada (preferencialmente coordenada por especialista com experiência em diabetes), apoiados por rotinas/protocolos clínicos e educação do paciente antes da alta. O objetivo é elevar a qualidade e segurança assistenciais, reduzir complicações e otimizar custos. Diretriz Diabetes
Por que formalizar um PCGH?
Melhora de indicadores (como hipoglicemias graves e infecções), padronização do cuidado, rastreabilidade e treinamento contínuo — pilares para acreditações e excelência assistencial. Diretriz Diabetes
3) Perioperatório: GLP-1/GLP-1+GIP — como proceder
O capítulo perioperatório 2025, publicado em colaboração com a Sociedade Brasileira de Anestesiologia (SBA) e a ABESO, traz recomendações claras para pacientes em uso de agonistas de GLP-1 e coagonistas GLP-1/GIP que irão a procedimentos com sedação ou anestesia geral — medida essencial diante do uso crescente dessas terapias. As orientações incluem critérios para manter ou suspender temporariamente a medicação, uso de dieta líquida 24h antes em casos selecionados e a ultrassonografia gástrica point-of-care quando disponível, para avaliar resíduo e mitigar risco de broncoaspiração. Diretriz DiabetesSBA
Na prática: a decisão é individualizada e alinhada entre Endocrinologia, Anestesiologia e equipe cirúrgica, equilibrando risco de atraso do esvaziamento gástrico com o risco metabólico de suspender terapias eficazes. Diretriz DiabetesSBA
4) Outras condições agudas abordadas
- Síndrome hiperglicêmica hiperosmolar (HHS): diagnóstico e manejo enfatizam reposição volêmica, correção cuidadosa de eletrólitos e insulinização em alvos seguros, considerando o perfil típico de pacientes com DM2 e estresse fisiológico associado. Diretriz Diabetes
- Cetoacidose diabética (incl. forma euglicêmica): reforço de critérios, rastreio de gatilhos (como infecção e uso de SGLT-2), hidratação, potássio e insulinoterapia, com vigilância intensiva. (Capítulos específicos de CAD e CAD-e constam na diretriz; a forma euglicêmica vem ganhando destaque pelo risco de subdiagnóstico.) Diretriz Diabetes
- Infecção no pé diabético: ênfase em diagnóstico precoce, estratificação de gravidade, antibioticoterapia dirigida e abordagem multidisciplinar para reduzir amputações e recidivas. Diretriz Diabetes
Para quem é gestor(a) hospitalar: 6 passos para sair do papel
- Nomeie uma coordenação (preferencialmente endocrinologista com experiência hospitalar). Diretriz Diabetes
- Monte a equipe multidisciplinar (medicina, enfermagem, nutrição, farmácia, fisioterapia, psicologia). Diretriz Diabetes
- Padronize protocolos (alvos glicêmicos por perfil de paciente, fluxos de insulinoterapia EV e SC, prevenção de hipoglicemia). Diretriz Diabetes
- Implemente educação pré-alta (autocuidado, sinais de alarme, plano de seguimento). Diretriz Diabetes
- Integre ao prontuário checklists e ordens sets para reduzir variabilidade. Diretriz Diabetes
- Monitore indicadores (tempo em alvo, hipoglicemias graves, reinternação) e promova educação continuada. Diretriz Diabetes
O que muda para pacientes e famílias
- No hospital, glicemias elevadas são tratadas ativamente para reduzir infecção, tempo de internação e complicações. Metas entre 140–180 mg/dL costumam ser as mais seguras na UTI. Diretriz Diabetes
- Se você usa medicações injetáveis semanais para emagrecer/diabetes (como GLP-1), avise sua equipe com antecedência ao procedimento — a conduta (manter x suspender) depende do seu caso e do tipo de cirurgia/anestesia. Diretriz DiabetesSBA
Atenção: este artigo tem caráter informativo e não substitui avaliação médica individualizada.
Referências consultadas
- Portal oficial Diretriz SBD 2025 (conjunto da obra). Diretriz Diabetes
- Hiperglicemia hospitalar no paciente crítico – Diretriz SBD 2025 (post de 09/08/2025). Diretriz Diabetes
- Diretrizes clínicas para implantação de PCGH (post de 21/05/2025). Diretriz Diabetes
- Perioperatório (GLP-1/GLP-1+GIP) – Diretriz SBD 2025 (publicação de 23/07/2025) e nota SBA. Diretriz DiabetesSBA
- Síndrome hiperglicêmica hiperosmolar – Diretriz SBD 2025. Diretriz Diabetes
Sobre a autora
Dra. Denise Momesso – Endocrinologista, Coordenadora do Departamento Hospitalar da SBD Nacional. Participou da elaboração das Diretrizes SBD 2025, com atuação nos capítulos hospitalares (hiperglicemia em críticos e não críticos, perioperatório, programas de controle glicêmico, emergências hiperglicêmicas e pé diabético).