Nos últimos anos, o uso de agonistas de GLP-1 e coagonistas GLP-1/GIP cresceu de forma significativa, tanto no tratamento do diabetes quanto da obesidade. Com isso, surgiram dúvidas sobre como manejar esses medicamentos em pacientes submetidos a cirurgias.
Para responder a essa necessidade, a Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD), em parceria com a Sociedade Brasileira de Anestesiologia (SBA) e a Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e Síndrome Metabólica (ABESO), publicou em julho de 2025 uma atualização das diretrizes perioperatórias, oferecendo recomendações práticas para garantir mais segurança aos pacientes.
O que motivou a atualização?
Essas medicações podem retardar o esvaziamento gástrico, aumentando o risco de estase gástrica e, consequentemente, de broncoaspiração durante procedimentos com anestesia ou sedação. Por outro lado, a suspensão do tratamento pode comprometer o controle glicêmico e o manejo da obesidade. Por isso, era fundamental equilibrar riscos e benefícios.
Pontos-chave das novas recomendações
- Suspensão da medicação:
- 7 dias antes do procedimento para agonistas de longa duração (ex.: Ozempic®, Wegovy®, Mounjaro®, Rybelsus®, Saxenda®).
- 1 dia antes para agonistas de curta duração (ex.: Victoza®).
- Manutenção do tratamento:
- Em pacientes que já utilizam a medicação de forma estável por mais de 12 semanas, sem fatores de risco para broncoaspiração, a recomendação é manter o uso.
- Dieta líquida e jejum:
- Para prevenir estase gástrica, é recomendada dieta líquida 24 horas antes do procedimento, seguida de jejum de 8 a 12 horas.
- O tempo de jejum pode ser individualizado conforme o paciente e o tipo de cirurgia.
- Ultrassonografia point-of-care:
- Quando disponível, a avaliação ultrassonográfica do estômago pode ser usada para verificar resíduo gástrico antes da anestesia, aumentando a segurança da conduta.
O que muda na prática clínica
A decisão sobre suspender ou não o agonista de GLP-1 deve ser individualizada, levando em consideração:
- O risco de broncoaspiração,
- O tempo de uso da medicação,
- O tipo de procedimento,
- O equilíbrio entre segurança perioperatória e controle metabólico.
Essa atualização promove uma comunicação mais integrada entre endocrinologistas, anestesiologistas e cirurgiões, garantindo condutas alinhadas e seguras para cada paciente.
Sobre a autora
Dra. Denise Momesso – Endocrinologista, Coordenadora do Departamento Hospitalar da SBD Nacional. Participou da elaboração das Diretrizes SBD 2025, com atuação nos capítulos hospitalares (hiperglicemia em críticos e não críticos, perioperatório, programas de controle glicêmico, emergências hiperglicêmicas e pé diabético).